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Revolução Constitucionalista no baixo amazonas

Revolta Constitucionalista de 1932 na amazônia

 

O PANORAMA QUE LEVA AO CONFRONTO PAULISTA.

A Revolta Constitucionalista de 1932 na amazônia é uma decorrência dos fatos ocorridos a partir de 9 julho de 1932, onde o estado de São Paulo protagonizou um levante armado contra o Governo Provisório, chefiado por Getúlio Vargas, instalado no poder por meio de um golpe civil-militar deflagrado em outubro de 1930. Tendo como cenário o interior de São Paulo, aquela foi uma das mais violentas guerras civis acontecidas no Brasil. Durante quatro meses, tropas paulistas combateram um Exército numericamente muito superior, reforçado por pelotões militares e voluntários civis arregimentados por interventores estaduais nomeados por Vargas.

Comentando a imprecisão numérica das forças beligerantes, Hernâni Donato cita o general Manuel Rabelo, líder do movimento, que estimou a tropa mobilizada por Vargas em cerca de 350 mil contra 36 a 40 mil rebeldes paulistas. Dá voz também ao historiador paulista Ellis Junior, que estimou em 200 mil o número de constitucionalistas. A discrepância deve-se em relação ao número de soldados e voluntários que se apresentaram à luta e aos que efetivamente pegaram em armas. Ver: DONATO, Hernâni. História da Revolução de 32. São Paulo: Ibrasa, 2002.

A historiadora Vavy Pacheco Borges, autora de dissertação e tese sobre a chamada Revolução Constitucionalista de 1932, observa que os paulistas apontaram como causa do movimento armado o retorno ao Estado democrático de direito, inexistente no país desde que Vargas tomou o poder, tornando a primeira Constituição Republicana, de 1891, sem efeito.

O termo “revolução” será, neste artigo, escrito em itálico porque, a rigor, não houve uma revolução no sentido de uma transformação na estrutura do poder, mas por se tratar apenas de designação dada ao movimento por seus protagonistas. BORGES, Vavy Pacheco. Memória paulista. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1997.

Para Vargas, o móvel da revolução em São Paulo era outro: os paulistas teriam declarado guerra ao Governo Provisório por causa da perda da hegemonia política de São Paulo, com o fim da chamada “política do café com leite”, expressão que busca sintetizar a alternância do poder entre paulistas e mineiros nas quatro primeiras décadas da República.

A autora aponta a impropriedade do uso da expressão “política do café com leite”, sedimentada em uma tendência historiográfica em torno da aceitação da hegemonia da aliança mineiro-paulista sobre o regime oligárquico da Primeira República. Além de apontar fissuras nessa aliança, faz crítica aos termos, por ser Minas Gerais também um grande produtor de café. VISCARDI, Claudia M. R. O teatro das oligarquias: uma revisão da “política do café com leite”. Belo Horizonte: Fino Traço, 2011.

SOB AS ORDENS DO GENERAL KLINGER: ÓBIDOS NA REVOLUÇÃO PAULISTA DE 1932

Conforme Stanley Hilton, as lideranças do movimento constitucionalista em São Paulo articularam o apoio de outros estados, principalmente do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais, cujas forças militares eram bem aparelhadas. Entendiam que a principal bandeira de luta, o retorno da Constituição, era suficientemente forte para aglutinar apoio à derrota do Exército de Vargas. Mas o apoio daqueles dois estados não se efetivou. Quase quatro meses depois, os combates entre as tropas beligerantes chegaram ao final, com a derrota paulista atenuada pela assinatura de um armistício.

Em um dos mais recentes estudos sobre 1932 em São Paulo, Marco dos Santos e André Mota informam que, em relação ao número de baixas, não há consenso na historiografia da guerra, mas ela se destaca quantitativamente: “considerando somente as baixas paulistas, os números variam de 600 a 830 soldados. […] De qualquer modo, considerando qualquer das cifras, o evento pode ser visto como a maior campanha militar nacional do século XX”, afirmam.

Ao analisarem o processo de transformação de uma derrota no campo de batalha em acontecimento-chave da identidade paulista, Santos e Mota destacam datas que, apesar de mais de seis décadas transcorridas, fazem parte do cotidiano dos moradores e do patrimônio urbanístico da capital paulista:

 

Talvez poucos brasileiros o saibam, mas desde 1997 celebra-se a memória do conflito armado de 1932 com a instauração de um feriado estadual paulista. Baseando-se na Lei Federal 9093/95, que permite que cada Estado ostente um feriado oficial por ano, a Assembleia Legislativa aprovou o projeto que fixava o dia 9 de julho no calendário. Essa data veio se juntar ao panteão de símbolos que representam um sentimento de identidade paulista, ou paulistanidade.

 

Os autores informam que a cidade de São Paulo ostenta múltiplos signos de celebração da “guerra civil” de 1932. Apontam, por exemplo, para o fato de duas de suas maiores avenidas terem sido batizadas com datas que fazem alusão a conflitos em 9 de julho e 23 de maio. Trata-se de uma memória construída imediatamente após a deflagração da guerra, por meio do colecionismo de objetos produzidos na ocasião, como flâmulas, bandeiras e cartazes, hoje em acervos públicos e privados, tornando essa forma de colecionismo um importante instrumento no estabelecimento dos elementos de identidade regional.

A ideia de que a Revolução Constitucionalista de 1932 congraçou todas as classes sociais de São Paulo em um esforço de guerra, em nome da restituição do Brasil à normalidade democrática, afirmam os autores, sintetiza a forma como o conflito é retratado pelo senso comum paulista. No entanto, dizem, essa visão não surge espontaneamente, mas apresenta raízes profundas na produção de um discurso que teve sua disseminação viabilizada por intensa campanha, cristalizando o que se pode chamar “sentido da revolução”.

Mal terminado o conflito, teve início a construção dessa memória. Escritores e memorialistas lançaram-se ao esforço de ressaltar “a epopeia constitucionalista de 9 de julho de 1932”, vista pelo “ângulo paulista”, no dizer do escritor modernista Menotti Del Picchia, uma das figuras-chave do movimento de 1922. Referindo-se à adesão dos paulistas à Revolução, Picchia diz que o “transe de paixão de um povo culto, idealista e ardente somente pode ser sentido e escrito com paixão”. Seu livro foi um dos primeiros publicados após a assinatura do armistício, em dezembro de 1932. Ele deu o tom da maioria das obras escritas por autores de São Paulo sobre a Revolução quase no calor do acontecimentos, buscando construir a imagem de uma “luta heroica e solitária dos paulistas contra um governo que se transformara numa ditadura. Heroica porque os paulistas lutaram contra um Exército três vezes maior que a Força Pública do Estado. Solitária porque, apesar do prometido apoio de Minas Gerais e Rio Grande do Sul, São Paulo lutou só”.

A verificação de alguns dos títulos publicados sobre a luta em São Paulo leva-nos a concluir que a Revolução Constitucionalista parece ter sido uma guerra essencialmente paulista. Ei-los: A revolução paulista, de Menotti Del Picchia (1932); A guerra de São Paulo, de Manuel Osório (1932); A nossa guerra, de Alfredo Ellis Junior (1933); São Paulo contra a ditadura, de Aquino de Oliveira (1933); O general Flores da Cunha e a revolução paulista, de Pilla et al. (1933); Verdades da revolução paulista, de Gastão Goulart (1933); São Paulo venceu!, de Arnon de Melo (1933); Gaviões de penacho: a luta aérea na guerra paulista de 1932, de Lísias Augusta Rodrigues (1934).

Para os padrões editoriais em voga no Brasil de então, destacam Santos e Mota, a produção memorialística sobre 1932 em São Paulo é “assustadora”. No curto espaço de cinco anos, entre 1932 e 1937, foram editadas 150 obras acerca da guerra. Mais “assustador” ainda é o volume de publicações entre a assinatura do armistício, em outubro, e o final daquele ano, ou seja, em dois meses: 63, sem contar outros 37 que ficaram prontos, mas só foram publicados no ano seguinte. Reforçou a noção de que a Revolução de 1932 foi obra do “povo” paulista em defesa de interesses nacionais — a Carta Constitucional e o fim da ditadura, dois dos argumentos mais recorrentes naquelas obras.

De toda essa produção acerca da Revolução Constitucionalista, raros fazem citação aos registros de conflitos ou a conspirações de apoio a São Paulo ocorridos em outros estados. Quando o fazem, não trazem mais detalhes além da citação do local onde ocorreram. Hilton entende que a quase ausência desses registros em apoio à causa paulista deve-se à pouca expressividade das adesões. Dessa forma, apesar da “boa vontade, energia e autossacrifício de elementos constitucionalistas no Norte e Nordeste, aquelas adesões não resolveriam o problema militar de São Paulo”. O importante era o apoio do Rio Grande do Sul e de Minas, para onde a atenção paulista voltava-se esperançosamente.

A versão que se cristalizou foi a de que, apesar de haver, em todo o país, insatisfeitos com a ditadura, os paulistas não tiveram apoio de nenhum estado ao declarar guerra ao Governo Federal. A tese do exclusivismo paulista ainda ressoa em obras recentes, como no documentário 1932: a guerra civil, de Eduardo Escorel, que integra trilogia sobre a Era Vargas. No início do filme, o roteirista e narrador, Paulo Sérgio Pinheiro, ressalta que, apesar do prometido apoio de Minas Gerais e do Mato Grosso, os paulistas estavam inteiramente sós quando a luta começou. O filme contribui, assim, para a legitimação do senso comum, explorado à exaustão por escritores como Del Picchia, Ellis, Osório, Donato, entre outros, de heroísmo do povo paulista.

Considerando o enorme silêncio em relação ao que ocorreu para além das terras paulistas sobre a Revolução Constitucionalista de 1932, este artigo propõe-se investigar a luta que se deu no Baixo Amazonas, estendendo-se por Belém, Óbidos, Santarém, Parintins, Itacoatiara e Manaus, de apoio à causa paulista. Pretende-se trazer à tona esse capítulo quase ignorado da história do Brasil, ao mesmo tempo que se busca discutir possíveis causas que levaram sargentos, cabos e soldados do Forte de Óbidos e um punhado de civis paraenses a cerrar fileiras ao lado dos rebeldes constitucionalistas, assim como se procura entender por que esse acontecimento hibernou no esquecimento por tanto tempo.