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Inventário do artesanato Katxuyana

Cultura Tradicional Indígena | Inventário do Artesanato Katxuyana em Oriximiná

Inventário do artesanato Katxuyana de Oriximiná, na região oeste do Pará, é inventariada por pesquisadores da UFF. O protagonismo da cultura indígena Katxuyana e seus saberes tradicionais é registrado na publicação. A pesquisa realizada entre os anos de 2010 a 2011 configurou-se num inventário de práticas circunscritas à produção de artefatos que foram identificadas pela expressão “artesanato tradicional”. Denominamos tradicional tomando como referência o modo como esse artesanato foi aprendido, ao longo das gerações de maneira informal, baseado na oralidade ou no ‘aprender fazendo’. Esse inventário, realizado entre moradores do município paraense de Oriximiná, ao Norte do Brasil, configurou-se em pesquisa etnográfica.

Consultamos 125 artesãos em 31 comunidades diferentes – ribeirinhos, quilombolas, indígenas e moradores rurais da área do planalto (área de terra firme não inundável). Identificamos 64 tipos de objetos confeccionados com variadas tecnologias: trançado, utensílios de madeira, cerâmica, adornos, tecido. Seu principal objetivo era o levantamento panorâmico de práticas artesanais nas diversas comunidades daquele município paraense. A etnografia foi empregada como principal instrumento teórico/metodológico de coleta e análise dos dados, mas funcionou ainda como estratégia de aproximação de nossa equipe com membros das comunidades, suas lideranças e professores.

O que observamos em muitos lugares em geral e em Oriximiná, em particular, é que vários objetos artesanais cederam espaço a outras formas de produção: os objetos
industrializados. Apesar da substituição por tais objetos, os grupos pesquisados continuam a produzir manualmente muitos artefatos para uso diário e para fins
comerciais. Esses objetos revestem-se de um valor específico para as comunidades visitadas e seus artesãos se mostraram “materiais de memória” e “referência cultural” em suas comunidades. O inventário, para além do caráter classificatório e do próprio registro do artesanato, mostrou-se importante instrumento no trabalho de formação continuada de educadores da rede pública de Oriximiná numa abordagem metodológica de ensino/aprendizagem, a etnoeducação.

O inventário revelou saberes e fazeres locais; ou seja, um pouco do universo do patrimônio imaterial oriximinaense. Neste sentido, foi um ponto de partida necessário
e instrumento que produziu informações e que possibilitou, entre outras coisas, novas pesquisas e ações constitutivas das políticas como aquelas voltadas à preservação do patrimônio cultural, bem como reflexões sobre o significado de algumas categorias de classificação como cultura, tradição, artesanato, educação.

Inventário do Artesanato Katxuyana

Do Inventário à Etno Educação: O caso Katxuyana

Nesta secção interessa destacar o aspecto metodológico do inventário, sobretudo em sua perspectiva didática; ou seja, na abordagem da etnoeducação. Em que medida a etnografia tem nos valido para instrumentalizar processos de ensino/aprendizagem que incluam, no cotidiano escolar, pesquisas sobre saberes tradicionais? Como observamos o protagonismo dos sujeitos envolvidos em nosso programa de extensão? Para ilustrar trazemos a experiência que temos observado entre os Katuxyana desde o início de sua participação em nosso programa, em 2010, na época do inventário do artesanato. Se naquele momento os Katuxyana foram sujeitos pesquisados, desde 2012 eles vêm desenvolvendo projetos de etnoeducação em sua escola. Este caso tem sido observado entre os Katxuyana moradores da aldeia Warahatxa Yowkuru.

Neste caso, pudemos observar como alguns velhos e líderes Kaxuyana, sujeitos da pesquisa do inventário, dois anos depois, ao continuarem participando de nosso programa elegeram, junto com os alunos Katxuyana, o artesanato como atividade de ensino/aprendizagem na escola formal. Passaram eles de sujeitos investigados a sujeitos conduzindo investigações sobre saberes tradicionais, segundo seus interesses e necessidades. Na aldeia ouvimos, então, jovens afirmando a importância desse aprendizado como imprescindível para que, no futuro, eles também possam transmitir tais saberes aos seus descendentes. Antes, contudo, é importante informar o leitor sobre o contexto cultural onde os Katxuyana estão situados.

Os Katxuyana são ameríndios do grupo Karib que vivem na região do Baixo Amazonas (Brasil) e são falantes da língua katxuyana, um ramo guianense da família
linguística Karib (Meira, 2006). Para Denise Grupioni (2010), esse povo se autodenominaria Purëhno (gente, pessoa). O nome Katxuyana lhes foi atribuído em
função do território que historicamente ocupam. Trata-se de um etnônimo composto de uma raiz fluvial (Kaxu – de Kaxuru, rio Cachorro) e de um sufixo coletivizador (-yana), (Girardi, 2011). Já em 1955, o missionário franciscano alemão Albert Kruse (1955), escreveu que yana seria uma expressão que significaria gente de um determinado lugar ou de um determinado rio; assim, Kaxuyana – gente do rio Cachorro. O rio Cachorro é um dos tributários formador do rio Trombetas, afluente da margem esquerda do rio Amazonas.

A Guiana Amerídia, como também é conhecida a região Guianense Oriental, compreende a fronteira norte do Brasil e o Sul da Guiana Francesa, o Suriname e a
Guiana. Para Melatti (2011) trata-se de região ocupada por ameríndios das famílias linguísticas tupi-guarani e karib, sendo estes últimos os que predominam na região. A dificuldade encontrada por este antropólogo para organizar uma tabela ou quadro de referência sobre os povos desta região decorre do intenso processo espontâneo e
deliberado de fusão e dispersão que ocorre entre eles. Esse processo de fusão e dispersão nem sempre foi bem compreendido pelos pesquisadores e, nas discussões
sobre a região, grande é o embate sobre o tema.

Neste debate sobre os povos ameríndios guianenses, há uma oposição entre teorias centradas na “atomização” desses grupos e outras que identificam o sistema de troca
como elemento primordial para a sua própria existência. Na primeira vertente encontram-se trabalhos como os de Gallois (2005), enquanto na segunda vertente
despontam trabalhos como os de Rivière (1984).

A migração vivenciada pelos Katxuyana foi analisada por Queiroz e Girardi (2012). Essa sociedade ameríndia, hoje com cerca de 350 pessoas (ISA, 2010), vive no Norte do Brasil e se organiza em 10 aldeias espalhadas nas margens de rios em diferentes localidades: quatro na Terra Indígena Parque do Tumucumaque (no rio Paru de Oeste, estados do Pará e Amapá); no município paraense de Oriximiná, duas estão no rio Cachorro e duas no rio Trombetas, além de mais duas localizadas no rio Nhamundá (no estado do Amazonas).

A partir do século XIX, os Katxuyana, bem como outros “índios do Trombetas”, tiveram contatos frequentes com muitos não autóctones. Esses contatos teriam suscitado o desenvolvimento de doenças que dizimaram os povos indígenas daquela região. Acerca da população katxuyana, o que consta na literatura (Frikel, 1970) é que, no ano de 1968, ela era constituída por pouco mais de 60 indivíduos com restritas possibilidades de casamento em função de seu sistema de organização social.

Diante de um iminente risco de extinção, eles decidiram abandonar suas terras no rio Cachorro para migrar. Foi nessa ocasião, então, que eles partiram para locais distantes de seu território no rio Cachorro onde passaram a viver por mais de trinta anos com outros povos indígenas Karib em missões religiosas. Apesar disso, eles nunca desistiram do sonho de voltar a reocupar sua região. Assim, a partir do final dos anos de 1990, alguns Katxuyana decidiram voltar à sua terra no rio Cachorro num lento e complexo processo de regresso, de defesa da cultura katxuyana e de reivindicação de seus direitos.

Foi no ano de 2009 que, em razão de nosso programa de extensão, conhecemos os Katxuyana e visitamos pela primeira vez a sua aldeia às margens do rio Cachorro, a aldeia Warahatxa Yowkuru, também conhecida como aldeia Santidade. A partir de 2010, os Katxuyana dessa aldeia passaram a participar das atividades de nosso programa. Tratar da pesquisa do artesanato faz sentido, nesse momento em que pretendemos discorrer sobre a escola, na exata medida em que, como dissemos, de pesquisados os Katxuyana passaram a pesquisadores de artesanato, num protagonismo dialógico com nosso programa.

 

A pesquisa do inventário do artesanato junto aos Katxuyana se deu ao longo de três etapas de campo (duas em 2010 – janeiro e agosto, uma em 2011 – julho) ocasião em que entrevistamos e acompanhamos, sistematicamente, quatro homens e cinco mulheres desde a identificação da matéria-prima na mata até seu preparo e uso na
confecção de diferentes artefatos. Vimos, por exemplo, Cândido caminhar com sua esposa Maria José pela floresta à procura do peunê, semente usada para fazer adornos corporais. Acompanhamos Maria José no longo preparo dessa semente: desde a separação dos galhos dos gomos, que contém as sementes, ao seu cozimento e lavagem no rio, até ao tingimento com elemento vegetal para obtenção de um vermelho encarnado e um preto intenso que alternados à coloração natural da semente – um determinado tom de marrom – possibilitam à artesã uma multiplicidade de alternativas estéticas.

Observamos Candido fazer e, já naquela ocasião, ensinar informalmente um garoto a tecer wasaha (jamaxim), artefato usado pelas mulheres para carregarem produtos agrícolas e madeira que extraem na roça. O velho e respeitado Manuel, meticulosamente, preparou um puahua, outro artefato cesteiro usado sobretudo pelos homens para acondicionarem objetos de caça e pesca. O jovem solteiro Isaías e o já maduro Antônio respectivamente mostraram diferentes entretrançados com tala de arumã para a confecção do manare (peneira) e da ahata (cesto). Acompanhamos as velhas Mariinha e Nazaré e também Patrícia a confeccionarem coloridas tangas e cintos de miçangas. A velha Isabel, pacientemente, nos mostrou como se faz a tecelagem do algodão: do descaroçamento à fiação de um fino fio empregado no tecido de redes e tipoias para carregar criança a tiracolo.

O registro desses saberes incluiu centenas de fotografias e audiovisuais. Todo o trabalho do inventário, não apenas aquele realizado entre os Katxuyana, foi sintetizado
e gerou uma publicação impressa, o Inventário do artesanato tradicional de Oriximiná/PA (Russi e Rocha, 2012b), que foi distribuído gratuitamente a todas as escolas da rede pública daquele município. Esse material, visto e revisto pelos moradores da aldeia Warahatxa Yowkuru, tem sido apropriado de diferentes formas, como material didático, por exemplo.

Esse livro sobre o artesanato também tem sido empregado em nossas oficinas de formação continuada de professores em Oriximiná com duplo sentido. Um deles, o de
divulgar os saberes sobre práticas artesanais, às vezes, desconhecidas dos professores, o outro se volta à análise da própria etnografia e de sua potencialidade na prática da etnoeducação. O saber fazer do artesanato, tão associado ao cotidiano de muitos homens e mulheres, ao ser objetivado e sistematizado num inventário e materializado numa publicação chamou a atenção não apenas de professores oriundos de outras comunidades, mas também de alguns artesãos que se encantaram ao verem suas fotos e objetos no livro.

O outro sentido dessa pesquisa se revela durante nossos encontros com os professores quando, ao tratarmos de temas como etnografia, inventário, pesquisa sobre saberes tradicionais tal metodologia (a do inventário) é acionada em seu caráter didático – quer para os professores quer para os discentes de graduação que integram a equipe de nosso programa. Assim, vejamos como os Kaxuyana têm dado prosseguimento à ideia do inventário.

 

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Do Inventário do artesanato katxuyana para Escola, da Escola para a Comunidade

No ano de 2011, a população da aldeia katxuyana era compunha-se de 62 indivíduos, sendo que 59% deles tinham menos de 14 anos de idade. Um aspecto relevante a ser apontado é o fato de que mais de 50% da população frequentava a escola. A escola de ensino fundamental Matxuwaya recebeu esse nome em homenagem a um de seus antigos líderes Juventino Matxuwaya. As experiências da etnoeducação entre os Katuxyana se iniciou em 2012. Até àquele ano, tanto o 1.º quanto o 2.o segmento do ensino fundamental funcionavam numa grande casa comunal circular de cobertura cônica feita em palha trançada, a tradicional tamiriki. Naquele ano, construíram uma igreja e o 1.º segmento do ensino fundamental passou suas aulas para esse novo espaço.

Na tamiriki mantiveram as aulas do 2.º segmento do ensino fundamental. No caso dos alunos do 2.º segmento segundo segmento, não havia separação entre eles em
decorrência de possíveis defasagens idade/série, como é comum ocorrer em escolas brasileiras.2 Na mesma sala, estudavam alunos de diferentes séries, convivendo, então, adolescentes solteiros e homens e mulheres casados com filhos. Desde que abriram a aldeia Warahatxa Yowkuru, em setembro 2003, e, talvez muito
antes disso, os Katxuyana vivem um processo complexo de valorização de sua cultura que aqui não cabe detalhar. Importante, contudo, é o fato de que, a partir de 2012, o professor da escola da aldeia e também seu pata yotono, 4 seu líder, Mauro Mühako, tem participado das oficinas e encontros de nosso programa para a formação
continuada de professores, ou melhor, para a formação de professores/pesquisadores (etnoeducadores).

Nesses encontros, discutimos com os professores sua ação como sujeitos autônomos e protagonistas no desenvolvimento com seus alunos e membros da comunidade e sobre projetos voltados à pesquisa de saberes locais. Assim, a partir de abordagens metodológicas inspiradas na etnografia, professores e alunos, de comum acordo, elegem um aspecto da cultura tradicional que desejam investigar. O espaço escolar entre os Katxuyana nos parece locus para o ensino/a aprendizagem não apenas de conteúdos programáticos, os ditos saberes acadêmicos organizados separadamente por áreas de conhecimento em livros didáticos.

Neste sentido, a figura do professor e também pata yotono da aldeia chama nossa atenção. Oficialmente, professor do 1.o segmento e responsável pelas aulas de língua e cultura katxuyana, Mauro tem conduzido de forma coletiva e compartilhada os projetos em etnoeducação e patrimônio. Em 2012, vimos acontecer projetos que contemplaram temas escolhidos por grupos de gênero – os rapazes fizeram um projeto sobre caça e pesca e as moças escolheram como tema a pintura corporal.

Dessa mesma forma, em 2013, Mauro, juntamente com alguns velhos como seu pai João do Vale, o já citado velho Manuel e outros, elegeu, com a concordância dos alunos do 2.º segmento do ensino fundamental, o tema tïkahsomï (artesanato) para o desenvolvimento de um projeto em etnoeducação na escola. O projeto Tikahsomï:
enwo etome enuikatome anayatawï (Artesanato: saber fazer para ensinar no futuro) teve como objetivos: 1. pirehno wosomukatohu tïkansontom hoko (para a pessoa saber

FIGURA I – Tanga com padrão kuhakpá da aluna Edna, resultado do aprendizado da técnica de tecelagem com miçangas coloridas
Fonte: Adriana Russi
DESENHO I – Desenho elaborado pela aluna Edna, que acompanha o texto que explica sobre como tecer tanga com miçangas
fazer artesanato), 2. yonwo etome anayatawï mïrehtxinton yomukatome wïya (para saber fazer e ensinar meus filhos no futuro).
O projeto foi desenvolvido principalmente durante as férias escolares pelos próprios alunos, sendo que o professor Mauro orientou o início do processo e acompanhou as etapas finais. Os alunos katxuyana envolvidos no projeto foram duas moças (Edna e Lessiane) e quatro rapazes (Isaias, Josivan, Renan e Calixto). Cada um deles escolheu um tipo de artefato que gostaria de aprender. Assim, apenas para ilustrar, Edna decidiu aprender a tecer tanga de miçanga com padrão kuhakpa (Figura I e Desenho I), o mesmo padrão da pintura corporal que fez parte do projeto da escola no ano anterior e Calixto escolheu confeccionar um artefato trançado, o putumu (tipiti).